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Wait aí uma beca

A minha vida não é fácil

Wait aí uma beca

A minha vida não é fácil

Ele vem aí

Está a chegar uma vaga de frio. As temperaturas poderão descer até aos zero graus centígrados e a expressão “está um calor esquisito”, promete regressar em grande.

Nas redes sociais vão se intensificar as fotos de lareiras e de quanto é que marca o termómetro do carro. O “volta Verão” vai ser o pedido mais desejado do início de 2017. O beijo de esquimó fará mais sentido mas será bastante complicado se ambos estiverem constipados.

Há sempre um toni que acha que o frio é psicológico e por isso sai à rua com a sua t-shirt favorita vestida e o mais friorento, que mesmo dentro de um centro comercial, não prescinde do seu gorro e luvas. É o regresso em força dos casacos e gorros de animais e dos cães miniatura vestidos com roupas de pessoas. Nas bancadas dos jogos de futebol há sempre alguém disposto a mostrar a sua proeminente barriga. Muita gente irá sair de casa com o pijama vestido debaixo da roupa.

Eu, como não tenho lareira, continuarei a colocar eletricidade no meu aquecedor a óleo e usar o cobertor alentejano que por vezes me faz espirrar. Se o Inverno fica mesmo rigoroso, tipo Guerra dos Tronos, irei vestir o urso da Natura. Não ponho de parte a hipótese de adotar um pinguim, desde que ele não tenha o vício de ir correr atrás de bolas.  

 

 

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A hora do reformado

Trabalhar por turnos permite ir às compras ao dia de semana, quando há menos movimento, mas existe sempre o risco de encontrar a hora do reformado.

Normalmente a hora do reformado é de manhã porque todas as pessoas com mais de sessenta anos gostam de acordar cedo. Hoje vou almoçar peixinho, pensava eu ingenuamente, até que me aproximo da bancada do peixe e avisto um ajuntamento.  Parecia que tinha acabado de chegar um autocarro das excursões patrocinadas pela junta de freguesia ou então o Pingo Doce achou por bem reservar aquela zona do supermercado para o Bingo.

No caminho para tirar a senha ainda fui ultrapassado por um senhor que se meteu pela esquerda. Era o 51 e só há bocadinho tinham chamado o 40. Fui fazer o resto das compras e quando voltei ainda só ia na senha 41.Quem estava à espera ia pondo a conversa em dia. Quando o sinal sonoro alertou que a senha seguinte era o 42 alguém exclamou “Aleluia!”. Devia estar com pressa para ir ver o Goucha. Acabei por desistir e levar uma pizza congelada para o almoço.

Na fila para pagar quem paga com multibanco engana-se no código ou carrega no OK antes de tempo. Quem decide pagar com dinheiro tem sempre o porta-moedas carregadinho de moedas de 1 cêntimo e precisa da ajuda do Caixa para as contar. Há sempre pelo menos um senhor bastante impaciente, provavelmente porque quer estar em casa na altura do Opinião Pública cujo tema é futebol.    

 

 

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Mais um dia complicado

Acordei com sono. Parece que estou de ressaca de uma noite numa discoteca de rock distorcido mas esse evento já ocorreu há uns dias. Devia dar um jeito à casa mas o meu gene procrastinador levou a melhor. Vou vendo o que se passa nas redes sociais na esperança que o meu telemóvel colabore. Ele está lento, com a bateria viciada e por vezes até trabalha sozinho mas ainda não é desta que o vou mandar abater. Talvez dure até ao carnaval.  

Posso estar de folga do trabalho mas tenho sempre que exercer as funções de lançador de bolas para o Oscar, o labrador dos vizinhos. Quando começa a ouvir o meu estore a subir, sai disparado do segundo andar para o jardim, em busca da bola ideal para eu atirar. Estou eu a estender a roupa, preocupado se as calças pretas que comprei recentemente perderam tinta, e está ele à espera que chute a bola de ténis mais enlameada do grupo. Almocei sob o seu olhar a tento. O sol teima em aparecer para secar a roupa.

De tarde recebi uma visita do Guma, o cão ancião do jardim, para mais uma dose de bolachas tostadas e do filho do meu vizinho que quis consultar as últimas do futebol no meu computador. Perguntou se eu ia ver o Benfica e se eu tinha pintado o cabelo. As suas luvas de guarda-redes estão há mais de uma semana no móvel do pc mas ainda não foi desta que as levou para casa.        

O jantar foi num restaurante japonês onde o único empregado oriental era o tipo que lavava os pratos. Não tirei nenhuma foto à travessa do sushi. No final da noite acabei por beber um Gin do Mar cuja diferença de um gin normal era o sabor a maracujá, fruto esse que qualquer Marinheiro com “m” grande, coloca na sua bebida.      

Acabei por não limpar a casa, a roupa não secou e não me saiu nada na aposta de dois euros e meio da máquina no Euromilhões mas acabei o dia cheio de sushi e com o ténis direito mais enlameado que o esquerdo.  

Bom ano em Fevereiro

Será que existe algum prazo para deixar de desejar bom ano? Será que a chegada de o Dia de Reis encerra os votos ou só em Fevereiro é que deixa de ser aceite pela sociedade o desejo de um bom 2017?

Já chegámos ao quinto dia e ainda há quem o diga como se fosse meia-noite do dia um. Eu, que trabalho por turnos, nem sempre estou com os mesmos colegas, por isso sempre que me cruzo com um, fico na dúvida se já o vi este ano ou não.

Se calhar a qualidade do 2017 de uma pessoa dependerá muito do número de vezes que lhe desejarem um bom ano. Quem tiver a cima de 100 votos irá ter um ano do caraças, onde irá conhecer a mulher ou homem da vida dele e ter tudo o que sempre sonhou porque lhe saiu o euromilhões em dia de” jackpot”. Se o número de votos estiver entre os 50 e os 100 terá um ano bastante aceitável mas não será desta que poderá comprar um Lamborghini, nem ver aceite o pedido de casamento via Twitter à Emily Ratajkowski. Se tiver menos que 50 desejos de bom ano, irá ter um 2017 bem complicado.

Não basta identificar os teus amigos do Facebook numa foto de uma garrafa de champanhe ou criar um grupo no WhatsApp com o nome “Feliz ano novo!” para o ano deles correr bem. Os votos pessoais contaram sempre mais. Se desejar bom ano duas vezes à mesma pessoa, o voto deixa de ser válido. A julgar pela qualidade das últimas arbitragens na Taça da Liga, os árbitros tiveram muito poucos votos.

Em 2017 é que é!!

Passagem de ano num restaurante. Antes de entrar, o condutor de um carro bastante lotado pediu-me indicações para a praia das Maçãs que ficava a mais de 12 quilómetros. Como não queria estragar a o fim de ano da família, disse-lhe para voltar para trás e perguntar a outra pessoa. Não queria ficar como peso na consciência, caso eles ficassem perdidos na serra de Sintra.

Entrar na sala de jantar podia muito bem significar o entrar num ano bem sombrio. Não havia sequer um fiozinho de rede e a maior televisão passava a Casa dos Segredos. Felizmente havia outra com a SIC Notícias e uma password de wi-fi fofinha.

Em todas a frentes havia fotos a serem tiradas e crianças circulavam com objetos que brilham no escuro. Até ao final da noite, ainda vou conseguir roubar uns óculos. Senhoras de idade vintage não largavam o stick. Eu, que estava sentado de costas para todos os acontecimentos, quase que comecei o ano com um torcicolo.

Não gosto de passas mas nesta altura faço sempre o esforço de comer as 12. Difícil é arranjar 12 desejos. Para além dos óbvios, que qualquer Miss desta vida sabe de cor, sobram ainda muitas passas até ao final. Não sei se as maiores valem mais, mas a grande foi para um Sporting campeão. Acho que não comi todas.

A pista de dança estava ao rubro com música dos anos 80, música brasileira e kizomba. As gramas que ganhei no jantar rapidamente evaporaram na pista. Sempre que uma música começava, interrogávamo-nos se o cantor ainda estaria vivo. Fiquei bastante sensibilizado quando começou a tocar o “Milla” do Netinho, que por acaso ainda está vivo. Estive quase para entrar num comboio musical mas não estava suficientemente alcoolizado para me agarrar a uma senhora vintage. Acabei por não roubar nada fluorescente às crianças.

 

Um excelente 2017 para todos vós. 

 

 

 

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Pai Natal de Chocolate - A Ressureição

Quando já ninguém o esperava, o pai natal de chocolate conseguiu fugir da prateleira de uma grande superfície comercial, com a ajuda de um amigo que lhe iluminava o caminho, e foi conhecer o mundo.

Fez uma maratona de filmes de Natal e chegou a ficar assustado ao ver “O Estranho Mundo de Jack”, mas onde ficou mesmo apavorado foi durante o Ronaldo sozinho em casa.

O clube do coração do pai natal era o Sporting, só vestia o vermelho e branco por causa do seu contrato com a Coca-Cola. Antes do derby chegou a ganhar uma mialgia de esforço. A dor acabou por passar mas o resultado do jogo não foi favorável e por isso procurou refúgio num ponto alto e tranquilo, para deixar de ouvir discussões sobre futebol.

O pai natal tinha graves problemas de visão e chegou a achar que a Boneca, a gata do condomínio, era uma rena mas quando descobriu o poker, foi como tivesse ganho um novo par de olhos. Tinha uma excelente Poker Face.

Do poker passou rapidamente para outros tipos de jogos como o Euromilhões, Totoloto, Totobola, Placard, raspadinhas e o jogo do galo. O pai natal tinha um problema com o jogo e ele foi-se agravando com as quantidades exageradas de álcool que ingeriu durante os jantares de natal. Um dia acordou num copo dentro de um micro-ondas. Deixou de ouvir músicas de natal e passou a ouvir Quim Barreiros.

Percebendo-se do seu estado lastimável, decidiu recorrer a livros de autoajuda, dar uns passeios à beira mar e até chegou a visitar Paris, mas sem grandes resultados. Acabou por fazer publicidade à Calcitrin para pagar dívidas de jogo.     

No dia de Natal descobriu o Monopólio e depois de várias horas de jogo intenso, acabou por perder a cabeça na prisão do jogo. Teve uma vida curta mas preenchida.

 

 

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Eu sei o que fizeste no jantar de Natal passado

Dezembro é o mês da restauração. Toda a gente decide combinar jantares nesta altura e os restaurantes agradecem.

Há sempre um jantar num restaurante de comida oriental. Estava marcado para as nove no chinês mas há quem apareça só uma hora depois porque o GPS não quis aderir à quadra festiva. Durante o jantar foram gravadas autênticas longas-metragens que, na ínfima possibilidade de ficar famoso, poderão danificar a minha reputação quando forem transmitidos na CMTV.

Nos jantares de Natal das empresas somos todos amigos. Há quem aproveite a disponibilidade dos diretores para a bajulação, são criados os casalinhos de ocasião e aparecem os colegas que não sabem lidar com a bebida.

O jantar era uma espécie de street food groumet, com roulottes a servirem hambúrgueres de carne argentina, picanha com bolo do caco e hot dogs. Não havia nenhuma roulotte de farturas. Usei um chapéu de Pai Natal, outro de um duende e umas hastes de rena. Felizmente não há fotos no Facebok a registar esses momentos. Ao sair estava um tipo, altamente embriagado, deitado no banco corrido onde tinha deixado o meu casaco mas felizmente não estava debaixo dele.

Arranjar boleia para um jantar é fundamental, mesmo que para isso tenha que ir num carro com vidros embaciados, por uma estrada mal iluminada, conduzido por alguém que se esqueceu dos óculos em casa. Nos televisores do restaurante passava o Porto e, apesar de o restaurante estar cheio, só havia uma pessoa a comemorar os golos dos azuis e branco. A minha boleia acabou por sair mais cedo porque, segundo ele, precisava de passar um tempo considerável na casa de banho e não queria usar a do restaurante.

Tudo acontece num jantar de Natal mas a maior parte ou não te lembras ou preferes não te lembrar. Para o ano há mais.   

 

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Banda sonora de uma corrida

Correr com e sem música, são experiências bastante diferentes. Com banda sonora, consegues-te abstrair do que te rodeia, estás ao ritmo do “Eye Of the Tiger” e por momentos pensas que és o Rocky Balboa e que estás a subir uma grande escadaria a alta velocidade, mesmo se na verdade estiveres numa reta aborrecida e a ser ultrapassado por um sexagenário.

“Tu és um cavalo de corrida”, afirma aos teus ouvidos o António Ribeiro dos UHF, e nem te apercebes que está um ciclista a tentar ultrapassar-te. Tens familiares, parados no trânsito, a apitar furiosamente e só à décima apitadela é que percebes que é para ti e acenas em movimento. Correr na marginal é giro e tal mas se o mar está bravo podes levar um valente banho em pleno Dezembro, com ou sem música de fundo.

Sem música é possível interagir mais com o ambiente que te rodeia. Consegues ouvir os grunhos que decidem gritar dos carros em movimento e um senhor ciclista que em plena subida, com sotaque açucarado, exclama: “ Cara, espere por mim!”.

Tens a praia por tua conta e por isso decides ir correr na areia, mas praias vazias significam cães à solta e consegues sentir um ladrar furioso a se aproximar e uma senhora a gritar: ”Ele não morde!”. Ficas sem saber se deves abrandar e confiar na senhora ou libertar o Bolt que há em ti e chegar a um sítio onde nenhum cão alguma vez chegou. A dona dizia a verdade, mas com outro tipo de cão e com um “Run Boy Run” em alto e bom som nos ouvidos, a música final podia ser bem dolorosa.

 

 

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Melhores jogos virão

Trabalhar em dia de Benfica x Sporting é complicado. Levo vestida a minha camisola verde com riscas brancas que comprei nos saldos da Quebramar, na esperança que dê alguma sorte. Nas redes sociais há quem partilhe fotos suas ou dos seus animais, equipados a rigor. Eu partilhei uma foto de um pai natal de chocolate com um cachecol do Sporting.

É sempre giro acompanhar os autocarros das equipas e as claques a chegar ao estádio. Parece que os canais televisivos têm sempre esperança que as claques provoquem desacatos. Pedras no caminho? Atiro-as porque hoje há derby. Giro, giro era ver uma claque que na chegada atirasse pétalas.

O jogo começa e eu a trabalhar. Estou rodeado de benfiquistas. Vou espreitando o jogo sempre que posso e o golo do Sálvio acionou a minha tendinite imaginária. Consegui parar para ver a segunda parte mas o golo do Jiménez deixou-me bastante abatido. O Bas Dost ainda reduziu mas não chegou para evitar a derrota. Fiquei demasiado deprimido para comentar os penalties não assinalados e as cartolinas.

Chego a casa bastante abatido e escrevo este texto enquanto como pizza de ontem ao som de Nick Drake. Melhores jogos virão.

 

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Feriado trabalhador

Ter que colocar o despertador para acordar num feriado é desumano. No dia em que as pessoas “normais” podem prolongar a sua estadia na cama, eu tenho que decidir se levo vestido para o trabalho o casaco mais quentinho ou o edredom.

Chego ao trabalho e dirijo-me ao bar. Ao pagar o café, em vez de chegar à frente o euro, empurro a colher e o pacote de açúcar que tirei dos cestos. O meu cérebro ficou em casa na ronha.

Há pouca gente a circular nos corredores mas andam crianças com a grande oportunidade de fazerem estragos no local de trabalho dos pais. Podia estar com amigos, com família ou em casa no quentinho a ver séries e a enrolar meias, mas ando nas redes sociais a ver fotos de praia e a ler “Bom dia!” de quem acordou às duas da tarde.

Nada acontece e até parece que o relógio se recusa a trabalhar. Trabalhei moderadamente, fiz todos os likes do dia e o sinal sonoro do fim do turno já tocou na minha cabeça. Ao menos no feriado não apanho trânsito no caminho para casa.