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Wait aí uma beca

A minha vida não é fácil

Wait aí uma beca

A minha vida não é fácil

33 e é bem complicado

No dia 2 de Maio de 1972 nasceu o "ator" Dwayne Johnson, no segundo de Maio de 1975 foi a vez do ex-futebolista David Beckham aparecer e num complicado 2 de Maio de 1984, algures da parte da tarde, que de manhã eu não funciono bem, veio ao mundo um Tó, que mais tarde passou também a ser Toni.

Quando digo que passo a ter 33 anos de existência, várias pessoas fazem referência à idade de Cristo. Sabendo isso, não se terei que passar esta idade complicada a fugir das cruzes e a não confiar em pessoas de nome Judas. Se por acaso encontrar um par de botas na rua, o melhor será fugir antes que Judas as encontre. Ter uma dor nas cruzes também não é bom sinal aos 33.

“Diga 33” também é uma expressão bastante utilizada quando chega esta idade. Os médicos utilizavam essa técnica na altura em que não existiam os atuais estetoscópios. Segundo a Internet, nos países de língua inglesa era pedido para dizer o número 99 e em Espanha era uma combinação de 33 com 44. Eu prefiro dizer 23.

Não acho grande piada a isto de comemorar o “meu” dia, na realidade foi a minha mãe que teve o trabalho todo, eu só decidi aparecer, mas como todos os anos a idade insiste em avançar, eu tenho que levantar a cabeça e pintar os cabelos brancos.

 

 

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Não sei se quero o Euromilhões

Acertar nos cinco números e nas duas estrelas geralmente é motivo para uma grande festa mas eu não saberia bem como lidar com tanto dinheiro.

Ir aos saldos faz parte do meu ADN. Comprar aquela t-shirt ou casaco com trinta por cento de desconto é um hábito de pobre difícil de perder. Com o primeiro prémio do Euromilhões simplesmente compraria tudo o que queria, o que tiraria toda a emoção.

Deixaria de ter um estilo de vida radical. Perderia o privilégio de limpar o local inóspito que se encontra atrás do fogão e de tirar a gordura que está há meses acumulada nas grelhas do exaustor. Bolas de cotão nunca mais. Sendo o apostador premiado, passaria a ter várias empregadas e uma despensa maior que a minha casa. Não saberia o que fazer com tanto tempo livre.

O antes da viagem passaria a ser mais monótono. Não seria necessário fazer pesquisas diárias pelos voos mais baratos e o meu dom de encher uma simples mochila com tudo o que é preciso para viajar, seria desperdiçado. Perderia a experiência única de adquirir um quarto com oito beliches e de partilhar uma casa de banho com todos os hóspedes. Ter um avião privado, graças ao Euromilhões, com o nome “Toni nas Alturas” até poderia ser engraçado mas com o tempo passaria apenas a ser rotina.      

Com o dinheiro do primeiro premio, ajudaria muita gente mas muitos mais tentariam se aproveitar da minha boa vontade. Devido ao intenso assédio, seria obrigado a deixar o país, fazer a barba mas deixando o bigode e mudar o meu nome para Ramon.

Mas, apesar de todos estes contras, continuo a apostar dois euros e meio, com números escolhidos pela máquina, porque gosto de viver a vida no limite.   

Os runners desta vida

No mundo das corridas é possível encontrar vários tipos de personagens:

 

O Top Runner

Há sempre alguém que, não sendo um atleta profissional, leva todas as corridas que faz com bastante seriedade. Usa meias de compressão, calções de licra, ténis de trezentos euros e palmilhas que valem quarenta.

Usa um relógio com Gps e sensor cardio e no telemóvel tem a app mais completa que analisa ao detalhe todos os pormenores do seu treino. Se encontrar alguém conhecido pelo caminho, finge que não conhece só para não lhe estragar o tempo. Dizer um simples “Olá” pode muito bem lhe custar uns preciosos milésimos de segundo. É capaz de cronometrar o tempo que gasta ao ir despejar o lixo.

 

O Sem Camisola

Quando começam a surgir os dias de calor, aparece o corredor de t-shirt na mão. É aquele tipo que não acha por bem sair de casa em tronco nu mas já considera normal o tirar da t-shirt a meio caminho e mostrar a sua barriga proeminente a quem passa por ele. Todo ele é suor e mesmo sem ter direto a medalhas no final, consegue garantir o bronze.      

 

O Selfies

Nas redes sociais aparenta ser um atleta de elite mas na verdade tira mais selfies do que metros que faz a correr. É capaz de levar um selfie sticks para as provas e até faz vídeos a mostrar o quão bem ele corre, mas enquanto está a ser filmado, até chega a ser ultrapassado por uma sexagenária com problemas de anca.  

 

O que tem uma maneira estranha de correr 

Há quem se entusiasme com a música que está a ouvir e começa involuntariamente a marchar e há quem diga, em voz alta, frases de motivação para elas próprias. Numa prova, cheguei a ser ultrapassado a grande velocidade, por alguém que soltava gritos idênticos a alguém que acabou de derrubar uma colmeia.

Por vezes é possível encontrar o corredor T-Rex, que não possui o ar ameaçador do dinossauro mas que faz toda a sua prova com as suas mãos dobradas, tal e qual o extinto réptil.   

     

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Uma História de Violência

O jovem Zé Tó é um fervoroso adepto do Canelas que nunca perde uma exibição de artes marciais da sua equipa, mas irá faltar ao jogo com o Maia porque tem marcada uma viagem de finalistas para o sul de Espanha.

Acorda bastante azamboado no chão do seu quarto de hotel em Torremolinos. Os candeeiros foram arrancados, a televisão está na banheira, o colchão está em parte incerta e no que resta das paredes está escrito a azul e branco “Macaco Rules”. Tem uma ligeira dor no joelho mas não se lembra de nada do que aconteceu na noite passada. Sai a cambalear do seu quarto e aos poucos vai percebendo que todos os alunos têm ordens para abandonar o hotel. De certeza que o gerente é o Dijsselbloem.

Conseguiram voo de regresso na United Arlines mas o avião estava sobrelotado. Os funcionários/guardas prisionais rapidamente começaram a arrastar pessoas para fora do avião. Quando Zé Tó estava prestes a ser agarrado pelos colarinhos, começou a confusão no avião. Carlão tinha escolhido o passageiro errado para expulsar do avião. Era Samaris o grego, que disferiu um murro no funcionário com tal força que não foram necessárias repetições para perceber a intensidade dele.

O caos fez check-in e todos os passageiros fizeram questão de o receber. No meio da confusão o Zé Tó ainda conseguiu atingir alguém com o joelho que não estava dorido. Depois de cadeiras arrancadas e de alguns cintos de segurança serem usados para estrangulamentos, foi concedida a vitória aos passageiros e o avião acabou por levantar voo. O avião acabou por aterrar, sem grandes percalços, na prisão de Guantánamo.         

E tudo o dentista levou

Dia de ir ao dentista. Só consegui consulta ao meio-dia. Era isso ou em Abril de 2020. Fui recebido à entrada pelo próprio dentista que me encaminhou logo para a sala da tortura, sem dar-me tempo para me preparar psicologicamente na sala de espera. A marcação anterior tinha sido cancelada, por isso ele já estava ansioso para por a broca a funcionar.

O doutor estava algo abatido. Logo ele tinha que ir a Alcochete e não estava com grande vontade. A música “Kids” dos MGMT começou a tocar e ambiente animou. Ele e a sua assistente começaram a trautear a música. Sádicos. No teto eu via estrelas.

Já na parte final do meu suplício, o doutor pediu para eu bater os dentes mas eu já não sabia onde é que eles se encontravam. Apesar do valor da consulta ser algo elevado, o meu lado esquerdo mostrou-se insensível ao efetuar o pagamento. Estava um dia quase de Verão mas, no caminho para casa, ainda avistei uma senhora que tinha um cobertor às costas. Na rádio começou a tocar o “High & Dry” dos Radiohead.

Só quase às três da tarde, já a cumprir o meu turno, é que consegui comer uma sandes de queijo fresco, mas ainda sem ter o meu lado esquerdo da boca cem por cento funcional. Só perto das quatro da tarde é que voltei a sentir.  

 

 

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Faz o que eu faço mas não vistas o que eu visto

Encontrar alguém que esteja a usar uma camisola, camisa ou t-shirt exatamente igual à que tens vestida, pode ser bastante maçador.

Num concerto, a probabilidade de encontrar alguém com uma camisola do Agir, idêntica à sua, é bastante elevada mas não é preocupante. O que interessa é demonstrar o amor pelo artista do sucesso “Parte-me o pescoço”. Agora, se estiver num concerto do Mickael Carreira e encontrar alguém com uma camisola do Agir, igual à que tem vestida, isso sim já é bastante peculiar.

No trabalho, ao princípio até pode ser engraçado. Tiram fotos e partilham nas redes socias que a hashtag #fardadetrabalho e recebem likes em catadupa.  Mais do que uma vez já não há like que aguente. Pode decidir nunca mais usar a camisola em dias laborais ou então entrar em negociações com o colega em questão para decidir quais os dias da semana em que podem usar a camisola para não haver sobreposições.

Num espaço público já é mais complicado. Se tiver alguma t-shirt por debaixo da camisola ou camisa, sempre pode ir à casa de banho e sair dela apenas com o que tinha vestido por debaixo. Se não tiver nada pode sempre andar em tronco nu, mesmo se estiver a atravessar um Inverno rigoroso, ou então simplesmente se desloque a outro restaurante, que pode não ter o melhor hambúrguer gourmet, mas ao menos não tem alguém igual a você. Ir a um Media Markt com uma t-shirt vermelha ou a um IKEA de amarelo não são as melhores opções. Assim habilita-se a que várias pessoas o confundam com um funcionário da loja.

Pelo sim pelo não, tenha sempre roupa de backup à mão.

 

 

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Sono por turnos

Trabalhar apenas um dia com poucas horas de sono é complicado, vários já é considerado um desafio. As horas de sono a menos funcionam como os pontos das gasolineiras: vão acumulando e no final o prémio não é grande coisa.

Chegas ao trabalho e ouves os comentários: “Não estás com bom ar!” e “Abre os olhos!”. Ao passar nos corredores és capaz de cumprimentar efusivamente pessoas que mal conheces. Só passado um tempo é que percebes que o elevador não está a andar porque o botão não foi pressionado. Em casos extremos és capaz de pedir um café à maquina que por acaso não funciona com comandos de voz. Perdes a noção de quantos cafés já tomaste.

No posto de trabalho não chegas a fechar os olhos mas entras em modo screensaver para poupar energias. Para voltares a funcionar basta um pequeno abanão. Tens a perfeita noção que na véspera não deverias ter ido a um jantar que coincidiu com a mudança para o horário de Verão. No final do dia tens apenas uma vaga ideia do que aconteceu.    

 

 

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Mais quadras à Primavera

A Primavera já chegou

E desato logo a rimar

Talvez seja inspiração da estação que começou

Ou dos anti-histamínicos que estou a tomar

 

Com ela o frio e a chuva apareceram

E o aquecedor tive que voltar a ligar

As flores no jardim já desabrocharam

Mas roupa estendida teima em não secar

 

O horário de Verão está a se aproximar

E o relógio uma hora terei que adiantar

Menos uma hora à noite irei descansar

Mas fico com mais tempo para a bola ao Oscar atirar

Numa sala de cinema perto de si

Numa sala de cinema é possível encontrar uma grande variedade de personagens:

 

O Sofredor

É aquela pessoa que não precisa de óculos 3D para entrar dentro de um filme. “Eish!”,”Whow!”,”Óooo!” e “Eu não acredito!” são algumas das expressões mais utilizadas por ela enquanto está a ver o filme. Se for um filme de terror é capaz de gritar “Atrás de ti!!” quando o assassino está prestes a esfaquear a jovem indefesa e tapa os olhos quando o sangue começa a jorrar. É capaz de exclamar “Grande aldrabice!” mesmo se a ação do filme se desenrolar em 2080.

 

O Telemoveldependente

Apesar dos avisos para desligar o telemóvel durante o filme, ele nem sequer consegue tirar o som. Troca mensagens, verifica as últimas novidades nas redes sociais e atende chamadas como se estivesse em casa.  Os dependentes em estado mais avançado são capazes de passar níveis no Candy Crush ou ver um filme no telemóvel durante a sessão de cinema.  

 

O Desorientado

Nunca sabe bem o que é que está a acontecer no filme. Ou tem dificuldade em acompanhar as legendas ou simplesmente não sabe ler. Coitada da pessoa que está ao seu lado que tem que descodificar o filme. É capaz de começar a debater o filme, ainda vai ele a meio, e sem esperar pelo intervalo.

 

Os Pombinhos

Não importa se é as Cinquenta Sombras Mais Negras ou A Bela e o Monstro a passar no ecrã gigante. Quando as luzes se apagam, os pombinhos entram logo em ação. Beijos prolongados, corpos inspecionados, apalpações sentidas, juras de amor na altura em que o personagem principal fica sem a cabeça. No final saem de mão dada, compostos e sem saberem o que raio é que aconteceu no filme.

 

O Pipocas

Quem teve a brilhante ideia de associar pipocas a uma sessão de cinema devia ser fustigado. É que existem pessoas que simplesmente não as sabem comer. Devora pipocas como se não houvesse amanhã e o barulho que faz é deveras complicado. É capaz de andar a mexer as pipocas no balde, durante vários minutos, sem tirar nenhuma. Quando deixas de o ouvir a ruminar e pensas que o teu sofrimento acabou, estás enganado. Quando chega o intervalo, ele vai buscar mais. É aquele que também insiste em aspirar a bebida quando já só existe gelo derretido.

 

 

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Carta de amor para a segunda-feira

Ser segunda-feira é complicado. Basta dar um pequeno pulo às redes sociais para sentir o ódio por ti nutrido, sem sequer precisar que apareças. Na véspera já começam a aparecer os Trumps desta vida a amaldiçoar-te, não te dando uma hipótese de mostrares o que vales. Até o Garfield, que passa os dias a comer e a dormir, te odeia.

Mas eu venho aqui declarar o meu amor por ti, segunda-feira. Sei que posso sempre contar contigo. Apesar de meio mundo te detestar, tens a força e coragem suficiente para aparecer todas as semanas, sem uma única falha. Acordo contigo no meu pensamento e assim deixo-me ficar mais um bocado na cama.

Adoro ir às compras no teu dia. Os shoppings e supermercados são menos frequentados, dando-me assim o espaço suficiente para realizar os meus desejos. O cinema é mais barato no teu dia e nunca me obrigas a ver comédias românticas.

Claro que nem tudo é um mar de rosas. Por vezes o meu horário assinala que estou de turno no teu dia mas as relações são mesmo assim. O que interessa é que até às vinte e três horas e cinquenta e nove minutos estarás sempre comigo.

Hoje é daqueles dias mágicos em que vou aproveitar tudo o que tens para dar. Obrigado por seres quem és.

Beijos do teu maior admirador.

 

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