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Wait aí uma beca

A minha vida não é fácil

Wait aí uma beca

A minha vida não é fácil

Os runners desta vida

No mundo das corridas é possível encontrar vários tipos de personagens:

 

O Top Runner

Há sempre alguém que, não sendo um atleta profissional, leva todas as corridas que faz com bastante seriedade. Usa meias de compressão, calções de licra, ténis de trezentos euros e palmilhas que valem quarenta.

Usa um relógio com Gps e sensor cardio e no telemóvel tem a app mais completa que analisa ao detalhe todos os pormenores do seu treino. Se encontrar alguém conhecido pelo caminho, finge que não conhece só para não lhe estragar o tempo. Dizer um simples “Olá” pode muito bem lhe custar uns preciosos milésimos de segundo. É capaz de cronometrar o tempo que gasta ao ir despejar o lixo.

 

O Sem Camisola

Quando começam a surgir os dias de calor, aparece o corredor de t-shirt na mão. É aquele tipo que não acha por bem sair de casa em tronco nu mas já considera normal o tirar da t-shirt a meio caminho e mostrar a sua barriga proeminente a quem passa por ele. Todo ele é suor e mesmo sem ter direto a medalhas no final, consegue garantir o bronze.      

 

O Selfies

Nas redes sociais aparenta ser um atleta de elite mas na verdade tira mais selfies do que metros que faz a correr. É capaz de levar um selfie sticks para as provas e até faz vídeos a mostrar o quão bem ele corre, mas enquanto está a ser filmado, até chega a ser ultrapassado por uma sexagenária com problemas de anca.  

 

O que tem uma maneira estranha de correr 

Há quem se entusiasme com a música que está a ouvir e começa involuntariamente a marchar e há quem diga, em voz alta, frases de motivação para elas próprias. Numa prova, cheguei a ser ultrapassado a grande velocidade, por alguém que soltava gritos idênticos a alguém que acabou de derrubar uma colmeia.

Por vezes é possível encontrar o corredor T-Rex, que não possui o ar ameaçador do dinossauro mas que faz toda a sua prova com as suas mãos dobradas, tal e qual o extinto réptil.   

     

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E tudo o dentista levou

Dia de ir ao dentista. Só consegui consulta ao meio-dia. Era isso ou em Abril de 2020. Fui recebido à entrada pelo próprio dentista que me encaminhou logo para a sala da tortura, sem dar-me tempo para me preparar psicologicamente na sala de espera. A marcação anterior tinha sido cancelada, por isso ele já estava ansioso para por a broca a funcionar.

O doutor estava algo abatido. Logo ele tinha que ir a Alcochete e não estava com grande vontade. A música “Kids” dos MGMT começou a tocar e ambiente animou. Ele e a sua assistente começaram a trautear a música. Sádicos. No teto eu via estrelas.

Já na parte final do meu suplício, o doutor pediu para eu bater os dentes mas eu já não sabia onde é que eles se encontravam. Apesar do valor da consulta ser algo elevado, o meu lado esquerdo mostrou-se insensível ao efetuar o pagamento. Estava um dia quase de Verão mas, no caminho para casa, ainda avistei uma senhora que tinha um cobertor às costas. Na rádio começou a tocar o “High & Dry” dos Radiohead.

Só quase às três da tarde, já a cumprir o meu turno, é que consegui comer uma sandes de queijo fresco, mas ainda sem ter o meu lado esquerdo da boca cem por cento funcional. Só perto das quatro da tarde é que voltei a sentir.  

 

 

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Faz o que eu faço mas não vistas o que eu visto

Encontrar alguém que esteja a usar uma camisola, camisa ou t-shirt exatamente igual à que tens vestida, pode ser bastante maçador.

Num concerto, a probabilidade de encontrar alguém com uma camisola do Agir, idêntica à sua, é bastante elevada mas não é preocupante. O que interessa é demonstrar o amor pelo artista do sucesso “Parte-me o pescoço”. Agora, se estiver num concerto do Mickael Carreira e encontrar alguém com uma camisola do Agir, igual à que tem vestida, isso sim já é bastante peculiar.

No trabalho, ao princípio até pode ser engraçado. Tiram fotos e partilham nas redes socias que a hashtag #fardadetrabalho e recebem likes em catadupa.  Mais do que uma vez já não há like que aguente. Pode decidir nunca mais usar a camisola em dias laborais ou então entrar em negociações com o colega em questão para decidir quais os dias da semana em que podem usar a camisola para não haver sobreposições.

Num espaço público já é mais complicado. Se tiver alguma t-shirt por debaixo da camisola ou camisa, sempre pode ir à casa de banho e sair dela apenas com o que tinha vestido por debaixo. Se não tiver nada pode sempre andar em tronco nu, mesmo se estiver a atravessar um Inverno rigoroso, ou então simplesmente se desloque a outro restaurante, que pode não ter o melhor hambúrguer gourmet, mas ao menos não tem alguém igual a você. Ir a um Media Markt com uma t-shirt vermelha ou a um IKEA de amarelo não são as melhores opções. Assim habilita-se a que várias pessoas o confundam com um funcionário da loja.

Pelo sim pelo não, tenha sempre roupa de backup à mão.

 

 

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Sono por turnos

Trabalhar apenas um dia com poucas horas de sono é complicado, vários já é considerado um desafio. As horas de sono a menos funcionam como os pontos das gasolineiras: vão acumulando e no final o prémio não é grande coisa.

Chegas ao trabalho e ouves os comentários: “Não estás com bom ar!” e “Abre os olhos!”. Ao passar nos corredores és capaz de cumprimentar efusivamente pessoas que mal conheces. Só passado um tempo é que percebes que o elevador não está a andar porque o botão não foi pressionado. Em casos extremos és capaz de pedir um café à maquina que por acaso não funciona com comandos de voz. Perdes a noção de quantos cafés já tomaste.

No posto de trabalho não chegas a fechar os olhos mas entras em modo screensaver para poupar energias. Para voltares a funcionar basta um pequeno abanão. Tens a perfeita noção que na véspera não deverias ter ido a um jantar que coincidiu com a mudança para o horário de Verão. No final do dia tens apenas uma vaga ideia do que aconteceu.    

 

 

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O regresso da busca do papel verde necessário para a circulação automóvel

Dia de levar o carro à inspeção. Antes de ir, aconselharam-me a me dirigir a um centro que fica perto de casa. Como antes tinha que passar pela oficina, acabei por ir a um centro de inspeção perto dela. Sou mesmo toni.

Quando estaciono o carro reparo que fecharam a linha dois e como tal só uma estava a funcionar. Agora que já cá estou não vou voltar para trás. Acabei por voltar para trás na altura em que fui pagar e reparei que tinha deixado o certificado de matrícula no carro. A senhora avisa que é capaz de demorar.

No carro vou consultando as últimas notícias, as redes sociais, as minhas várias contas de e-mail e o horóscopo do dia. A Maya não menciona nada do género “Quem espera, sempre alcança.” Se a Susana do Éder estivesse ao meu lado de certeza que teria algo motivador para me dizer neste período complicado. O sol vai batendo no vidro e começam a ficar reunidas condições para uma boa sesta, onde poderei sonhar com um mundo onde não existem esperas.

Dizem-me que já me posso colocar na fila. Parece que o fim está próximo. Quando está quase a chegar a minha vez vejo movimentações entre inspetores. O chefe organiza uma pequena reunião. A linha um deixou de funcionar, todos para a dois. Na mudança de linhas, o carro que está atrás de mim coloca-se de esguelha, como se quisesse aproveitar a oportunidade para me ultrapassar.  

O inspetor que me atende é um senhor novo e pede logo desculpas pela demora. Deve ter sido a inspeção mais rápida que alguma vez tive. Na altura da entrega do papel começou o suspense. Vejo o rapaz aflito e no seu auxílio chegam mais dois colegas. Não estavam a conseguir imprimir a folha. Só espero que não me entreguem o papel do La La Land.

O problema foi finalmente resolvido e, apesar de ter algumas anotações, a folha é verde. Claro que quando fiquei despachado o centro já tinha regressado à normalidade. As duas linhas já estavam a funcionar e estavam poucos carros à espera. Assim se passou uma hora e meia da minha vida complicada.         

 

 

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Inspetor Oscar

Oscar, o labrador dos meus vizinhos, vive obcecado por bolas e eu sou o seu fiel lançador. Está sempre disponível para entrar em perseguição e se a bola for parar a um local de difícil acesso não desiste até a conseguir de volta.

E se o Oscar usasse o seu talento para ajudar pessoas? Vários são os cães que ficaram famosos por fazerem o bem. A Lassie era perita em encontrar crianças que caíram no poço, o K-9 era exímio na caça ao tráfico de droga e o Max, primo do austríaco Rex, apanha criminosos e ainda consegue perceber o que o José Carlos Pereira diz.

Se o Oscar começa a ganir ou a bater com a pata nas portas de correr não é porque alguém está em apuros. Ele quer é que eu chute mais uma vez a bola ou então ela foi parar a um sítio inacessível e tenho que a resgatar antes que ele entre em depressão.

Podia tentar com que o Oscar fosse atrás dos fugitivos da prisão de Caxias mas duvido que conseguisse grandes resultados. Já é bastante complicado fazer com que ele saia de frente de uma bola para eu chutar quanto mais ir atrás de alguém que não conhece. Se os reclusos tivessem uma bola no bolso, aí sim o Oscar entrava em perseguição até ao fim do mundo. Conseguiria desativar bombas se o fio que fosse para cortar tivesse esferas.  

Para ter uma série de sucesso bastava arranjar uma parceira de combate ao crime com bastante saúde e usar bastantes truques de montagem e efeitos especiais para substituir as bolas por pessoas. Na vida real resta-me a esperança que ele aprenda a avisar-me sempre que comece a chover para eu apanhar a roupa.     

Toni dos bolos

Dia de fazer bolo de iogurte. A minha habilidade na cozinha nem é sequer reconhecida no meu bairro mas mesmo assim decidi arriscar a arte da pastelaria.

Não é o meu primeiro bolo de iogurte mas mesmo assim tenho que ter o site aberto com a receita. Dou sempre preferência aos que têm vídeo para evitar algum erro de interpretação. Quando começo a colocar os ingredientes a jeito aparece a gata Boneca para uma visita social. Resta saber se apareceu para dar sorte, para alertar o perigo de eu estar de volta do forno ou se simplesmente veio para miar e se roçar no mobiliário da casa.

Quando começo a juntar os ingredientes numa tigela para bater distraio-me no telemóvel e já não tenho a certeza se coloquei o açúcar de três ou quatros caixas de iogurte. Na dúvida ponho sempre mais. Não quero que seja um bolo light.

Como homem que é homem não tem batedeira elétrica, uso a batedeira manual que a minha querida avó ofereceu e bato até a massa e os meus dedos fazerem bolhas. Coloco a massa batida na forma e vai para o forno pré-aquecido. As minhas últimas tentativas de bolo saíram com o rabo queimado por isso hoje decidi seguir uma sugestão do Google e coloquei sal no tabuleiro. A receita diz que tenho que ter o forno a 170 graus mas como o meu só mostra números de 1 a 6 decidi colocar no 3 e esperar que corra bem.  

Entretanto recebo a visita do labrador Oscar mas ele não está interessado em bolos. O vício dele é bolas e eu sou o seu dealer. Nos intervalos de chutar a bola vou verificando o estado do bolo e a coisa não se está a desenvolver. A chama está muito fraquinha por isso mudo para o 4 e rezo para que o santo protetor dos pasteleiros esteja comigo.

Passado uns minutos olho para o bolo e ele olha para mim. Estava pronto. Tiro do forno e deixo-o repousar. Não ficou queimado em baixo e está comestível. Prova superada. Sinto-me um Avillez dos pobres e o meu bolo passará a se chamar de Yoghurt Cake à Toni.    

 

 

 

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Não te encostes a mim

Estar parado no trânsito é complicado mas pode ser a altura ideal para tratar de diversos assuntos. Há quem aproveite para tomar o pequeno-almoço, retocar a maquilhagem e até fazer a barba. É possível ouvir o álbum “69 Love Songs” dos The Magnetic Fields pelo menos duas vezes e todos os cds do Panda e os Caricas. Consegue finalmente ler as 1225 páginas do “Guerra e Paz” do Tolstói e fazer aviões de papel com as páginas de um qualquer livro do Gustavo Santos.

Parado dentro do carro consegue ter uma visão mais atenta do seu interior. Repara na quantidade considerável de pó no tablier, descobre 2 euros debaixo do banco do passageiro e encontra uma garrafa com um resto de uma água com cor estranha. Também pode interagir com os automobilistas que estão em seu redor por gestos ou mesmo baixar a janela e partilhar histórias de outros dias complicados.

Pode se queixar nas redes socias do trânsito e, se estiverem reunidas condições para uma selfie, até pode mudar a sua foto de perfil e receber likes em catadupa. O seu lado criativo pode vir ao de cima e elaborar uma canção:

 

Não te encostes a mim

Segue na tua faixa de rodagem

Não te encostes a mim

A distância de segurança tens que dar

Não te encostes a mim

Espera pela tua vez para teres passagem

Não queiras preencher a declaração amigável

Deixam-me a casa chegar   

 

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Quase que vi a Super Bowl

Todos os anos dou uma espreitadela na Super Bowl e continuo sem perceber grande coisa do jogo.

Quando falam em jardas começo logo a ficar baralhado. Um tipo fica acordado até tarde para ver homens a andarem aos encontrões, não para estar a fazer conversões de jardas para metros. Há jogadores que pintam a cara com um simples traço debaixo de cada olho, outros que são mais criativos e fazem alterações à pintura de guerra e alguns, que provavelmente quando estudavam não tinham boas notas a Educação Visual, que simplesmente borram a cara com tinta preta. Os mais asseados andam sempre com uma tolha presa à cintura. Deve ser uma grande sensação ganhar a Super Bowl mas com tantos encontrões duvido que alguém se lembre bem de toda a partida.

Este ano grande parte dos anúncios no intervalo tiveram como alvo a política de imigração de Trump e o concerto teve a Lady Gaga presa por arames, acompanhada por drones e bastante pirotecnia. Claro que não cheguei a ver nada disso em direto, só aguentei pouco mais de uma hora de jogo.

Se o futebol americano fosse popular em Portugal, a nossa Super Tigela teria o Presidente Marcelo a lançar a moeda e a tirar selfies com jogadores e árbitros e os intervalos publicitários seriam marcados pelos anúncios do Calcitrin e pela publicidade da Libidum Fast que teria o Futre a dará toques, sem usar os pés, numa bola de futebol americano. O concerto seria com a Ana Moura no alto pendurada por arames e o Agir, em baixo, a dizer que ela lhe partia o pescoço. Toda a emissão teria em rodapé um número de telefone que ao ligar podia dar direito a cinco mil euros em cartão.       

 

 

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Mais uma corrida até ao fim da Europa

Dia da Corrida Fim da Europa. É preciso ser-se um bocado toni para acordar antes das 8 da matina, num domingo de folga, para correr numa prova de 17 quilómetros para a qual paguei para participar. Ao menos não estava a chover.

Deixei o carro num parque de estacionamento na Azoia e fui de boleia até à partida na vila de Sintra. Na mudança de um carro para o outro acabei por deixar cair, algures na lama, os alfinetes-de-dama essenciais para prender o dorsal. Procurar uma agulha num palheiro é quase impossível mas procurar um alfinete-de-dama na lama também não é nada fácil. Felizmente tinha um, provavelmente da última corrida, no porta-luvas do carro que bastou para prender o dorsal mas que não impedia que uma rabanada de vento o fizesse dançar.

Nas corridas é sempre possível encontrar quem vai apenas para tirar umas fotos e o corredor que conhece todos os atletas, espetadores e os animais que por lá passem. Há os tonis que pagam para correr e os chicos espertos que aproveitam que as estradas estão cortadas para fazerem a prova em sentido contrário sem gastar um euro.

Quando o vento estava mais forte deixava de ser o número 2293 para ser o Informações Importantes. Perto do Cabo da Roca, vários turistas orientais tiravam fotos e gritavam algo parecido com “ Vai Tó!”. Foi o que me deu força nos quilómetros finais.

Tive dor de burro, fraquejei na subida mais ingreme e tive que parar duas vezes para atar os ténis mas acabei por fazer tempo idêntico ao do ano passado. Só apanhei chuva no caminho para o carro. Ao sair do parque de estacionamento um senhor disse-me adeus.      

 

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