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Wait aí uma beca

A minha vida não é fácil

Wait aí uma beca

A minha vida não é fácil

13.Jun.23

Marinheiro de água doce

Viagem à ilha do Pico para avistar baleias. Já é a minha segunda tentativa para encontrar os majestosos cetáceos marinhos. Tinha tentado avistá-las na ilha de São Miguel em 2021, mas sem grandes resultados práticos.  A expectativa agora era muita. Queria ver o salto de uma baleia azul durante um arco-íris, ao som de cagarras a interpretarem «Conquest of Paradise» do Vangelis. 

O Pico recebeu-nos com mau tempo. Aliás, fomos recebidos no Faial, porque não havia condições meteorológicas para aterrar no aeroporto do Pico. Passeámos de autocarro até ao porto da Horta, almoçámos no Peter Café Sport, mas não comemos peixinhos. Lá conseguimos chegar à ilha do Pico via barco, mas era impossível ver a montanha.   

O mar não estava para tonis, por isso a tão ansiada viagem para encontrar um familiar afastado do Moby Dick foi apenas possível na véspera do nosso regresso ao continente. Parti algo nervoso. Era a minha primeira vez num barco de borracha, tenho um enorme respeito pelo mar e pouca fé nas minhas capacidades de Aquaman. 

No início parecíamos que estávamos num parque de diversões, tanto que era o sobe e desce. E eu bem agarradinho ao ferro da frente para não sair a voar. A primeira paragem foi para ver orcas de imitação. Chamam-se falsas-orcas, são um pouco maiores que os golfinhos comuns e aparentemente mais simpáticas que as orcas verdadeiras. A segunda paragem foi para observar o que pareciam ser duas equipas de futebol de golfinhos, com respetivos suplentes. Eram golfinhos por todos os lados e eu a começar a sentir alguma má disposição.  

No início da viagem aconselharam a quem se sentir enjoado para olhar para a ilha ou para o horizonte. O problema é quando já não se consegue ver terra e o horizonte insiste em não parar quieto. Acabei por ir alimentar os animais marinhos. Não tinha muito para regurgitar, mas o que tinha foi diretamente para o alto mar. Mesmo sem já ter nada para sair do estômago, as náuseas permaneciam, por isso continuei com a cabeça apontada para o mar. Ainda para mais estava nos lugares da frente, servindo assim como espetáculo para todos os passageiros. Há que ser forte, levantar a cabeça e pensar que já devem faltar menos de três horas para a viagem terminar.     

Com o barco a andar as náuseas acalmavam, mas começava o modo montanha-russa. E foi um modo que parecia que nunca mais acabava. Era como se estivessem a engonhar para preencher o tempo de viagem porque já não havia mais animais marinhos para observar. De repente cai uma chuvada das valentes e não havia como escapar dela. A chuva não durou muito tempo, mas todo eu já era água. Se eu naquele momento fosse torcido e espremido, acredito que sairia água suficiente para encher uma piscina olímpica.         

E quando já estávamos a perder a esperança de avistar uma baleia digna desse nome, lá conseguimos ter direito a uma breve aparição de um cachalote bebé. Eu estava demasiado mal disposto para conseguir tirar uma foto do acontecimento. Aliás, durante toda a viagem tirei dez fotos e só em duas é que consegui apanhar animais marinhos. Permaneci nauseado durante todo o longo regresso. Até no momento em que o barco esteve prestes a atracar eu continuei com a cabeça apontada para o mar. 

Sobrevivi à viagem de barco, consegui ver parte de um jovem cachalote, mas nunca cheguei a ver a montanha que dá nome à ilha. Se voltar a navegar, comprimidos irei tomar.  

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